O pelotão que não fugiu do frio

#1
O Sábado passado prometia céu azul e temperaturas de congelador. A Protecção Civil aconselhava múltiplas camadas de roupa e abstenção de exercício físico violento. Por isso, vesti o casaquito de lycra por cima da blusa e ala para a Peneda para uma coisa de pequena quilometragem.
As tropas embarcaram cedo com destino a Cabreiro. Apesar de límpido, o dia estava miseravelmente frígido. Tal foi particularmente notório ao abandonar a nave-mãe e montarmos os titânios e carbonos que nos levariam onde o engenho e a força nos permitisse. Cumpriria, na parte que me toca, uma promessa de visitar a Peneda num dia mais fresco. Bom… mais fresco era difícil!



O azimute, em vez de apontar algum ponto cardeal, apontava arrogantemente para cima: dos 150 aos 1300 metros em alguma dúzia de quilómetros. Havia que começar e fizemo-lo lentamente, num ritmo calmo, esperando que houvesse poucas paragens. Após os primeiros 500m de acumulado, saíamos do asfalto para entrar na terra.



O ar gelado descobria entradas insuspeitadas no calçado e dentro de pouco tempo perguntava-me onde, raio, estariam os dedos dos meus pés. Bem tentei imaginar um teclado virtual e ensaiar umas escalas e arpejos com os dedos que faltavam. Debalde. Só lá no alto iria fazer uma pausa para alimento e aquecimento das extremidades congeladas.
Não se pense que foi só sofrimento. A paisagem mais que compensava os pequenos males do corpo com um cocktail para a alma. Ar cristalino, árvores variadas, umas vestidas, outras despidas para o Inverno.





Ausentes estavam os desgraçados eucaliptos, para gáudio meu. A água brincava, qual escultora, fazendo ora estalagmites, ora estalactites, ora alvos lençóis ou estranhas cornucópias de gelo.









Ao fundo, nos vales, os prados em repouso, à espera do Inverno.





A subida revelou-se interessante do ponto de vista humano. O contraste entre a reserva aristocrática do Myrage (uso aqui uma ideia de um outro tipo, que me desculpe) e a loquacidade do Sargento Domingos levou o último a, divertido, comentar, no regresso, esse mesmo contraste: "Como eu ando mais, os outros têm mesmo que me gramar!" "Pois, não te conseguem fugir." respondi-lhe divertido.







Lá no topo, a Titânica estava nervosa, com o gelo a evocar-lhe uma desgraça eminente. Na minha cabeça surgiu uma melodia manhosa. "Celine! então?! por aqui??". À minha frente, o di Caprio olhava apreensivo os icebergs do caminho. "Oh Leonardo! baixa os braços senão não vejo o caminho!".



Havia zonas, normalmente delicadas do ponto de vista técnico que, para além da equação pedra/buraco/rego/degrau, acrescentavam um factor “g” de placas geladas que faziam, ocasionalmente, a traseira falhar a pedalada e desviar-se abruptamente para o lado. Pensava eu que já tinha feito o melhor que esta serra tinha para dar! Guardado está o bocado...





No alto da Peneda prestei, desta vez, mais atenção ao fojo que me indicaram numa crónica recente.



Pelos lados da branda da Aveleira iniciámos o regresso após uma cuidadosa descida de uma calçada que evocou a hipótese de uso de trenós por parte do Máquina de Guerra.





A descida foi mais uma das soberbas descidas da Peneda. Desta feita, a descoberta devo-a ao general Nicolletto que a descreveu em sentido contrário há uns relatos atrás. Fi-la a ritmo mais reduzido pois o frio fazia-me lacrimejar como uma Madalena, reduzindo a já fraca acuidade visual.









Em Sistelo tive, finalmente, a ocasião de ver a casa do Castelo, uma mansão presunçosa que está incrivelmente abandonada. Serão problemas de partilhas?



O regresso, no interior aquecido da nave-mãe, restabeleceu a temperatura interna dos nossos organismos enquanto alguém ficava intrigado pelos meus gostos musicais. O general, esse, ainda foi tomar um extracto rico em cafeína por causa de uma dor de cornos. Terá sido o ritmo lento demais? Eu já só pensava num longo e morno chuveiro.
 
#2
Excelentes fotos, portugal no seu melhor, fala-se tanto dos outros países e nós por cá neste cantinho à beira mar plantado temos estes magníficos locais que tão pouca gente tem o privilégio de recordar ao vivo e a cores.
Os meus parabéns o btt é assim mesmo vai onde poucos se atrevem a ir.
Um abraço
chamusco
 
#4
Boas!Fico contente por finalmente a "minha" terrinha figurar nas vossas fantásticas incursões e cronicas!!
Pela minha parte sejam sempre bem-vindos, qq esclarecimento, dentro das minhas possibilidades estou ao dispor!!
Já agora, permitam-me o seguinte comentário:
É de experimentar visualizar mais três fojos, incluindo um em forma circular ( único na P.Ibérica. salvo erro).
O castelo de Sistelo, realmente está em ruínas (lamentável) e por coincidencia ou conhecimento de causa é devido a partilhas.....

Abraço e parabéns pela escolha dos trilhos e pelas fantásticas cronicas!!!

P.S. Boas festas a todos!!! :wink:
 
#5
Os antigos dizem: “quando a cabeça não tem juízo o corpo é que paga” mais verdade que isto, só o facto de que o Pai Natal nunca entrou pela minha chaminé.

Sábado dia 19 acordei completamente de rastos. O corpo apelava pelos lençóis e a cabeça lutava por honrar o compromisso. Numa tentativa de negociações ainda engoli 400mg de uma formula magica na base de Ibruprofeno. Não me recordo de alguma vez ter demorado tanto em preparativos. Também nunca me tinha lançado para o exterior vestido de licra com a temperatura apontar para -1.5 graus. Um bom contraste com os 18 graus do ninho.

Chegado a Cabreiro foi dar gás antes que me arrependesse . Claro que os metros ascendentes que tinha pela frente também me iriam manter ocupado de ideias fofas e quentes durante umas horas. O ritmo, esse, foi muito solo, calmo, e felizmente sem grandes conversas. Enquanto Major e Sargento seguiam bem ritmados e alinhados durante toda a jornada. Uma espécie de Homem-Maquina.



















A Peneda é de respeito. E quem se mete com ela leva. Foi com esse pensamento no Corno, que regressei a Casa.

Espero de qualquer forma ter honrado os galões. E até um dia mais quente…!

MY
 
#6
Acho incrível a capacidade de alguns indivíduos fazerem muito e bem. Além de não pararem quietos fazem relatos singulares com o devido registo fotográfico a acompanhar. Gosto de ver crónicas que fazem jus ao tópico em que se inserem.
A incorporação está próxima…
 
#7
Caro Confrade Lobo Solitário

É bom ler cronicas de alto gabarito.

É por isso que este canto das cronicas é o meu predilecto.

Parabéns aos "militares".

E já agora

Bom Natal e um Ano cheio de Páscoas :D :D :D

1 abraço e um queijo da serra
Miguel K2 Sampaio
 
#10
Até pela visualização das restantes fotos, tenho quase a certeza de que esta conduta

é a mesma à beira da qual há uns anos atrás merendei à sombra, abrigado do forte calor :lol:

Ui, tanto gelo nesse chão. Trás-me logo à memória uma quase fractura do cóxis e longos meses com dores que espero nunca mais repetir :s

De resto, boas crónicas, devidamente ilustradas, como habitualmente.
 
#11
Excelente. Obrigado pela partilha.

Afinal não foi o a "minha rapaziada" que não teve medo do frio.

Parabéns e já agora:

Um Bom Natal e um Ano de 2010 cheio de pedaladas, e muitos bons km's reportados sempre com fotos que nos fazem sentir vontade de pedalar em locais como estes.
 
#12
isto é Portugal????? :mrgreen: como o nosso Pais é LINDO!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! PARABENS e obrigado pelas fantasticas fotos de lugares de sonho do nosso Portugal!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! :shock:
 
#13
Boas festas a todo o pessoal que frequenta o fórum..

Quero agradecer ao Lobo Solitário mais uma boa voltinha pelo que para mim é o melhor e mais bonito local que temos para praticar esta modalidade..

Como não sou de muitas palavras, apenas quero juntar mais provas desta volta.




















Espero que gostem!
 
#14
Oh meus amigos............

Que inveja doh

Maravilhosos e super intereresantes itenerários.

As imagens são soberbas, primorosas, de se lhe tirar o chapéu e falam por si.

Parabéns pela possibilidade de andar nesses sítios fabulosos! :clap:
 
#15
Hoje vou aproveitar para aquecer o corpo e alma com uns valentes calices de Porto. Também na esperança de afogar um maldito vírus que aproveitou a boleia pela Peneda. Boa ressaca a todos. MY
 
#18
Meu Major não queria ofender a sua integridade "Morsíquica" e ainda por cima nesta quadra! :mrgreen:

lobo solitario said:
Meu caro Domingos
Isto de andar a divulgar o Código Morsa deveria ser razão para levá-lo a Tribunal Militar. No entanto, dada a época festiva, vou ser mais laxo... concedo um perdão natalício!
 
#19
Simplesmente...... BRUTAL!!!!
Locais fantásticos, assim vale bem a pena sair do quentinho do nosso lar....
Obrigado por partilharem as v/ aventuras com a malta!!!

Boas festas!
Abraços;

Miguel Lobão
 
#20
Olá. Parabéns pelas fotos fenomenais...
É por estas e por outras que eu tenho muito orgulho na minha vila!

Eu costumo dizer que Arcos de Valdevez é um paraíso para o BTT.

Já sabem se não conhecem e querem conhecer venham nos visitar, vejam os contactos em www.bttterrasdovez.com.

abraços