Codvid-19 - Impactos

#1
Pessoal,

Que impacto acham que o surto de Codvid-19 irá ter neste desporto? A Maioria das provas nas várias modalidades já foram canceladas nos próximos meses, maioria das equipas paradas, e crise economica que se aproxima que vai reduzir ainda mais os patrocinadores.

Mesmo a nivel amador a maioria das provas até final de Abril ja estão canceladas, nós vamos organizar uma inicio de Maio e não sabemos bem o que esperar por causa de autorizações, licenciamentos, etc mas a probabilidade de cancelamento é grande, Impactos?
 
#2
Até podem obter as autorizações e licenciamentos, mas no entanto não esperem grande afluência, tendo em conta que o recomendado é não frequentar lugares com muitas pessoas.

Aliás, na minha opinião nem devem organizar nada nessa data nem noutra, devem aguardar que normalize tudo. É o mais sensato. Organizar algo nesta altura é só contribuir para um aumento da probabilidade de propagação do vírus!
 

Pedro Barradas

Well-Known Member
#3
A minha maratona está agendada para 05 de Abril ainda não cancelei ou adiei. Dia 22 fazemos ponto de situação.
De acordo com as indicações/ circular da FPC as provas estão suspensas até 3 de Abril.
 

Pedro Barradas

Well-Known Member
#5
Acabei de cancelar a nossa Prova. Recebi uma chamada do "mestre de cerimónias", a indicar que todos os Eventos no concelho serão cancelados, licenças revogadas até ao dia 14 de Abril.
 
#7
Nós acabamos de informar o cancelamento da nossa prova para 03.05, tínhamos uma ultra maratona de 100kms.

Estivemos em contacto nos ultimos dias com as autoridades e foi a unica opção a tomar apesar de ser daqui a mais de 1 Mês a situação é muito complicada, mesmo que corra tudo pelo melhor e daqui a 1 Mês esteja mais calmo, temos a questão de licenças, teriamos que preparar a logistica, etc coisa que não o podemos fazer

Mas a questão é que mesmo para os profissionais e para a modalidade o impacto vai ser brutal, o quanto, depende dos próximos tempos mas vei ser bem grande na minha opinião
 
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davidream

Well-Known Member
#8
bOAS!
Infelizmente estou com um pressentimento que isto vai mudar as nossas vidas e realidades muito mais que a crise económica 2010/2014.
O impacto das restrições actuais e das que vem a curto prazo, vão arrasar o tecido económico Português :rolleyes: e não vejo nenhuma capacidade nos nossos decisores de antecipar ou mitigar o que quer que seja...
Que importância terão as nossas até agora rotinas diárias, quando situações como a de Itália e brevemente outras causarem uma disrupção em tudo o que estamos habituados a ter/fazer. É de facto uma boa pergunta:confused:.
Agora a um nível mais metafísico se quiserem, muito mais que a Gretas desta vida a Natureza "fala" através de uma dura e pragmática realidade e mostra que estamos aqui apenas de passagem. Quando vemos as atitudes da população relativamente a esta ameaça...
Protejam-se e aos vossos, que é o mesmo que nos proteger a todos. Quem sabe se muito rapidamente aparece uma vacina "milagrosa" que ajude a parar esta pandemia, e todos possamos voltar ás nossas vidas. fico a torcer por isso, e a que se aprendam as lições devidas.
Um abraço a todos!
 

AFP70

Active Member
#9
Boa tarde ao Fórum,

Aqui pelas Terras Helvéticas, estamos em fase de confinamento, já vamos no 6° dia de isolamento.

Ainda não estamos como em França na fase d’interdição de sair de casa em que para tal somente com uma declaração de saída assinada pelo portador explicando os motivos da saída (selecionar uma de seis opções), isto caso seja interpelado pelas “forças da ordem”. Caso não traga nada, multa de 130 EUR.

Por enquanto nada de transcendente, os hipermercados e supermercados estão abertos e conseguimos abastecer-nos sem grandes problemas excetuando alguns lineares vazios sobretudo na zona papel higiénico, vá se lá saber porquê.

Amigos (as) energúmenos, fiquem sabendo que o vírus num ataca pelo cu!

Aliás para estas pessoas que foram adquirir papel higiénico, com o pânico de que tal coisa acabasse, deixo aqui, este belíssimo poema “A água” do Manuel Maria Barbosa du Bocage.

“Meus senhores eu sou a água
que lava a cara, que lava os olhos
que lava a rata e os entrefolhos
que lava a nabiça e os agriões
que lava a piça e os colhões
que lava as damas e o que está vago
pois lava as mamas e por onde cago.

Meus senhores aqui está a água
que rega a salsa e o rabanete
que lava a língua a quem faz minete
que lava o chibo mesmo da raspa
tira o cheiro a bacalhau rasca
que bebe o homem, que bebe o cão
que lava a cona e o berbigão.

Meus senhores aqui está a água
que lava os olhos e os grelinhos
que lava a cona e os paninhos
que lava o sangue das grandes lutas
que lava sérias e lava putas
apaga o lume e o borralho
e que lava as guelras ao caralho

Meus senhores aqui está a água
que rega rosas e manjericos
que lava o bidé, que lava penicos
tira mau cheiro das algibeiras
dá de beber ás fressureiras
lava a tromba a qualquer fantoche e
lava a boca depois de um broche."

Toda a vida fui um otimista e mesmo perante esta pandemia, acredito que a curto prazo uma vacina ou tratamento com base na cloroquina estará para chegar. Esta é a minha opinião “et ça n’engage que moi”. Claro está que não há verdades verdadeiras, há sim verdades que adaptamos em função daquilo em que queremos acreditar :).

Nesta época conturbada em que vivemos, em que por cada notícia verdadeira, surgem logo (n) “fake news”, aconselho os mais curiosos a verem e ouvirem este link
e talvez fiquem ainda mais baralhados sobre o futuro radioso que nos aguarda ;).

A poucos meses de festejar o meio século de vida e para que possam entender ou visualizar o meu estado de espírito, deixo-vos aqui este pequeno poema adulterado “A minha alma está em brisa” do Mário de Andrade.

“Contei meus anos e descobri que tenho menos tempo para viver a partir daqui, do que o que eu vivi até agora.
Eu me sinto como aquela criança que ganhou um pacote de doces; O primeiro comeu com prazer, mas quando percebeu que havia poucos, começou a saboreá-los profundamente.
Já não tenho tempo para reuniões intermináveis em que são discutidos estatutos, regras, procedimentos e regulamentos internos, sabendo que nada será alcançado.
Não tenho mais tempo para apoiar pessoas absurdas que, apesar da idade cronológica, não cresceram.
Meu tempo é muito curto para discutir títulos. Eu quero a essência, minha alma está com pressa … Sem muitos doces no pacote …

Quero viver ao lado de pessoas humanas, muito humanas. Que sabem rir dos seus erros. Que não ficam inchadas, com seus triunfos. Que não se consideram eleitos antes do tempo. Que não ficam longe de suas responsabilidades. Que defendem a dignidade humana. E querem andar do lado da verdade e da honestidade.
O essencial é o que faz a vida valer a pena.
Quero cercar-me de pessoas que sabem tocar os corações das pessoas…
Pessoas a quem os golpes da vida, ensinaram a crescer com toques suaves na alma.
Sim…. Estou com pressa…. Estou com pressa para viver com a intensidade que só a maturidade pode dar.
Eu pretendo não desperdiçar nenhum dos doces que eu tenha ou ganhe…. Tenho certeza de que eles serão mais requintados do que os que comi até agora.
Meu objetivo é chegar ao fim satisfeito e em paz com meus entes queridos e com a minha consciência.
Nós temos duas vidas e a segunda começa quando você percebe que você só tem uma…”

Há dias em conversa com um grande amigo e com base na afirmação do amigo davidream, fiz-lhe exatamente a mesma pergunta “achas que as pessoas vão aprender alguma coisa com tudo isto?” e este respondeu-me nestes moldes “Olha Alex, neste momento as pessoas vivem e aplicam a teoria do funeral”. “Queres dizer o quê?”, repliquei. Ao que ele respondeu “Tás a ver amigo quando um gajo tem de participar ao funeral d’alguém que conhece, pois, vai, pensa na morte, fala com as pessoas que participam, familiares, amigos, larga uns bitaites género, é a vida, todos temos de passar por isso, ao pó regressamos e outras merdas que sei lá, mas mal acabou a cerimónia, lá regressamos no mesmo dia ou nos dias seguintes às nossas vidinhas e este episódio é arquivado no disco do nosso esquecimento, até ao próximo funeral”.

Confesso que não posso estar mais de acordo com o que ele disse, é a nossa natureza, no entanto penso que algo mudou ou vai mudar na nossa maneira de ver o mundo, a vida, tal como escreveu este autor desconhecido.

“Algo invisível chegou e colocou tudo no lugar.
De repente os combustíveis baixaram, a poluição baixou, as pessoas passaram a ter tempo, tanto tempo, que nem sabem o que fazer com ele.
Os pais estão com os filhos, em família.
O trabalho deixou de ser prioritário, as viagens e o lazer também.
De repente silenciosamente, voltamo-nos para dentro de nós, para entendemos o valor da palavra solidariedade.
Num instante damos conta que estamos todos no mesmo barco, ricos e pobres, que as prateleiras dos supermercados estão vazias e os hospitais cheios e que o dinheiro e os seguros de saúde, que o dinheiro pagava, não têm nenhuma importância neste momento, porque os hospitais privados foram os primeiros a fechar.
As garagens e parques estão parados, igualmente os carros topo de gama ou ferro velhos antigos, simplesmente porque ninguém pode sair.
Bastaram meia dúzia de dias para que o UNIVERSO estabelecesse a igualdade social, que se dizia ser impossível novamente.
O MEDO invadiu todos.
Que isto sirva para nos darmos conta da vulnerabilidade do ser humano.”

Como tudo na vida, isto vai acabar por passar à semelhança de todas as outras pestes que já assolaram este planeta, no entanto, o que interessa sempre é compreender se as pessoas vão ou não aprender alguma coisa, tirar uma lição.

Como dizia o Martin “I have a dream…” e eu pessoalmente continuo desde há mais de quinze anos a sonhar e sobretudo a viver cada dia como se este fosse o último, daí que se a “espada de Dâmocles” tiver de me atingir amanhã, acreditem que não vou perder o sono hoje :).

Um grande abraço a todos (as) e sem stress (ouvi dizer que faz mal à saúde) e sobretudo aproveitem para meter em dia as vossas vidas com aqueles que vos são mais queridos, afinal só se vive uma vez ;)
Alexandre Pereira
 

m.r.f.

Active Member
#10
Aqui em Portugal praticamente nada mudou além do apelo para não saírem de casa mas também nada o proíba, assim como as lojas permitidas para continuarem a abertas que deveriam ser para bens essenciais, pelos vistos até cosmética é um bem essencial porque podem estar abertas, talvez seja para as mulheres se poderem pintar para ir ao supermercado.
Até lojas de eletrodomésticos são permitidas abertas.

A única diferença é mais polícia nos locais habituais de grande aglomerado exterior tipo, margens ribeirinhas, praia, jardins.
 

iMiguel

Well-Known Member
#11
Neste momento por cá acho que se pode dividir da seguinte maneira: 1/4 da população em casa, 1/4 daqueles que, infelizmente têm que trabalhar e estar em contacto com os infectados (leia-se profissionais de saúde) e a outra metade restante aquela malta que pensa que "só acontece aos outros" e anda por aí como se tivesse de férias.
 

Pedro Barradas

Well-Known Member
#12
iMiguel... temos de separar as condicionantes ou não das áreas rurais das urbanas, e ainda mais as áreas urbanas de uma pequena vila ou aldeia no meio de nenhures, de um area urbana integrada numa zona metropolitana...
E tens muita gente aqui, no Alentejo interior, que trabalha no sector primário... há que tratar do gado, das hortas, etc...
Isto para dizer que há um pais com realidades muito diversas, interdependente da contenção social que as pessoas devem ter...
Abraço e que tudo corra pelo melhor, isto vai durar, bem mais do que atá ao verão.
 

Pedro Barradas

Well-Known Member
#14
... Eu outro dia, em casa, na casa de banho, escorreguei... Podia ter ficado mal.
. Não sabemos o que aconteceu... Multifracturas... Se calhar arriscou um bocado. Não menos verdade, que muitas das quedas, quase parados e quando se baixa a guarda.
 
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m.r.f.

Active Member
#15
Neste momento por cá acho que se pode dividir da seguinte maneira: 1/4 da população em casa, 1/4 daqueles que, infelizmente têm que trabalhar e estar em contacto com os infectados (leia-se profissionais de saúde) e a outra metade restante aquela malta que pensa que "só acontece aos outros" e anda por aí como se tivesse de férias.
Eu também estou sujeito, não sou profissional de saúde mas estou a trabalhar e é numa área da distribuição que não pode parar.
Só espero é não ficar contaminado.
 

AFP70

Active Member
#16
“O mundo depois do coronavírus” de Yuval Noah Harari, Financial Times – março 2020

Llfe&Arts

"Essa tempestade vai passar. Mas as escolhas que fazemos agora podem mudar as nossas vidas nos próximos anos

A humanidade enfrenta agora uma crise global. Talvez a maior crise da nossa geração. As decisões que as pessoas e os governos tomam nas próximas semanas provavelmente moldarão o mundo nos próximos anos. Eles moldarão não apenas nossos sistemas de saúde, mas também nossa economia, política e cultura. Devemos agir de forma rápida e decisiva. Também devemos levar em consideração as consequências a longo prazo das nossas ações. Ao escolher entre alternativas, devemos nos perguntar não apenas como superar a ameaça imediata, mas também que tipo de mundo habitaremos quando a tempestade passar. Sim, a tempestade passará, a humanidade sobreviverá, a maioria de nós ainda estará viva - mas vamos habitar um mundo diferente.

Muitas medidas de emergência de curto prazo se tornar-se-ão um elemento da vida. Essa é a natureza das emergências. Eles avançam rapidamente nos processos históricos. As decisões que em tempos normais podem levar anos de deliberação são aprovadas em questão de horas. Tecnologias maduras e até perigosas são colocadas ao serviço, porque os riscos de não fazer nada são maiores. Países inteiros servem como cobaias em experiências sociais em larga escala. O que acontece quando todos trabalham em casa e se comunicam apenas à distância? O que acontece quando escolas e universidades inteiras ficam online? Em tempos normais, governos, empresas e conselhos educacionais nunca concordariam em realizar tais experiências. Mas esses não são tempos normais.
Neste momento de crise, enfrentamos duas escolhas particularmente importantes. A primeira é entre vigilância totalitária e empoderamento do cidadão. A segunda é entre isolamento nacionalista e solidariedade global.

Para impedir a epidemia, populações inteiras precisam obedecer a certas diretrizes. Existem duas maneiras de conseguir isso. Um método é o governo monitorizar as pessoas e punir aqueles que infringirem as regras. Hoje, pela primeira vez na história humana, a tecnologia torna possível monitorizar todos todo o tempo. Há cinquenta anos, a KGB não podia acompanhar 24m de cidadãos soviéticos 24 horas por dia, nem podia esperar processar efetivamente todas as informações recolhidas. A KGB contava com agentes humanos e analistas, e simplesmente não podia colocar um agente humano para seguir todos os cidadãos. Mas agora os governos podem confiar em sensores omnipresentes e algoritmos poderosos, em vez de fantasmas de carne e osso.

Na sua batalha contra a epidemia de coronavírus, vários governos já implantaram as novas ferramentas de vigilância. Ao monitorizar de perto os smartphones das pessoas, ao usar centenas de milhões de câmaras que reconhecem o rosto e ao obrigar as pessoas a verificar e relatar sua temperatura corporal e condição médica, as autoridades chinesas não apenas podem identificar rapidamente os portadores suspeitos de coronavírus, mas também podem rastrear os seus movimentos e identificar qualquer pessoa com quem eles entraram em contacto. Uma variedade de aplicativos móveis avisa os cidadãos sobre sua proximidade com pacientes infetados.

Esse tipo de tecnologia não se limita ao leste da Ásia. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, de Israel, autorizou recentemente a Agência de Segurança de Israel a implantar a tecnologia de vigilância normalmente reservada aos terroristas em combate para atacar pacientes com coronavírus. Quando o subcomitê parlamentar relevante se recusou a autorizar a medida, Netanyahu impô-la com um "decreto de emergência".

Pode argumentar-se que não há nada de novo nisso tudo. Nos últimos anos, governos e empresas vêm usando tecnologias cada vez mais sofisticadas para rastrear, monitorizar e manipular pessoas. No entanto, se não tomarmos cuidado, a epidemia poderá marcar um importante divisor de águas na história da vigilância. Não apenas porque pode normalizar a implantação de ferramentas de vigilância em massa nos países que até agora as rejeitaram, mas ainda mais porque significa uma transição dramática da vigilância "sobre a pele" para "sob a pele".

Até então, quando seu dedo tocou o écran do seu smartphone e clicou num link, o governo queria saber exatamente o que seu dedo estava clicando. Mas com o coronavírus, o foco do interesse muda. Agora o governo quer saber a temperatura do seu dedo e a pressão sanguínea sob a pele.

O pacote de emergência
Um dos problemas que enfrentamos ao trabalhar sobre o ponto em que estamos quanto à vigilância é que nenhum de nós sabe exatamente como estamos sendo vigiados e o que os próximos anos podem trazer. A tecnologia de vigilância está se desenvolvendo a uma velocidade vertiginosa, e o que parecia ficção científica há 10 anos é hoje notícia antiga. Considere como uma experiência mental, um governo hipotético que exija que todo cidadão use uma pulseira biométrica que monitorize a temperatura do corpo e a frequência cardíaca 24 horas por dia. Os algoritmos saberão que você está doente mesmo antes de o saiba e também saberão onde você esteve e quem conheceu. As cadeias de infeção podem ser drasticamente encurtadas e até cortadas por completo. É possível que esse sistema pare a epidemia em questão de dias. Parece maravilhoso, certo?
A desvantagem é, obviamente, que isso daria legitimidade a um novo e aterrador sistema de vigilância. Se você sabe, por exemplo, que cliquei num link da Fox News em vez da CNN, isso pode-lhe ensinar algo sobre minhas opiniões políticas e talvez até sobre minha personalidade. Mas se você pode monitorizar o que acontece com a temperatura do meu corpo, pressão arterial e batimentos cardíacos enquanto assisto ao videoclipe, você pode aprender o que me faz rir, o que me faz chorar e o que me faz realmente, realmente zangado.

É crucial lembrar que raiva, alegria, tédio e amor são fenómenos biológicos, como febre e tosse.
A mesma tecnologia que identifica tosse também pode identificar risos. Se as empresas e os governos começarem a recolher os nossos dados biométricos em massa, eles poderão conhecer-nos muito melhor do que nós mesmos, e poderão não apenas prever os nossos sentimentos, mas também manipular os nossos sentimentos e vender-nos o que quiserem, seja um produto ou um político. A monitorização biométrica faria as táticas de hackers de dados da Cambridge Analítica parecerem algo da Idade da Pedra. Imagine a Coreia do Norte em 2030, quando todos cidadãos devessem usar uma pulseira biométrica 24 horas por dia e um deles ouvisse um discurso do Grande Líder e a pulseira captasse os sinais reveladores de raiva, ele estaria feito.

Você poderia, é claro, defender a vigilância biométrica como uma medida temporária tomada durante um estado de emergência. Ele desapareceria assim que a emergência terminasse. Porém, medidas temporárias têm o hábito desagradável de superar as emergências, especialmente porque sempre há uma nova emergência à espreita no horizonte. Por exemplo, meu país natal, Israel, declarou estado de emergência durante a Guerra da Independência de 1948, que justificou uma série de medidas temporárias, desde censura à imprensa e confisco de terras a regulamentos especiais para a fabricação de pudim (não estou a brincar). A independência já foi conquistada há muito tempo, mas Israel nunca declarou a emergência encerrada, e falhou em abolir muitas das "medidas temporárias de 1948" (o decreto do pudim de emergência foi misericordiosamente abolido em 2011).

Mesmo quando as infeções por coronavírus estão abaixo de zero, alguns governos com fome de dados podem argumentar que precisavam manter os sistemas de vigilância biométrica no local porque temem uma segunda onda de coronavírus ou porque há uma nova cepa de Ebola em evolução na África central, ou porque ... você entendeu a ideia. Uma grande batalha tem acontecido nos últimos anos por causa da nossa privacidade. A crise do coronavírus pode ser o ponto de inflexão da batalha. Pois quando as pessoas podem escolher entre privacidade e saúde, geralmente escolhem a saúde.

Continua a seguir no post 17...
 

AFP70

Active Member
#17
“O mundo depois do coronavírus” de Yuval Noah Harari, Financial Times – março 2020

Continuação do post 16…

The soap police

Nas últimas semanas, alguns dos esforços mais bem-sucedidos para conter a epidemia do vírus da hepatonavirus foram orquestrados pela Coreia do Sul, Taiwan e Singapura.

Embora esses países tenham feito uso de aplicativos de rastreamento, eles confiaram muito mais em testes extensivos, em relatórios honestos e na cooperação voluntária de um público bem informado.
Monitorização centralizada e punições severas não são a única maneira de levar as pessoas a cumprirem diretrizes benéficas. Quando as pessoas são informadas dos factos científicos e quando as pessoas confiam nas autoridades públicas para lhes contar esses factos, os cidadãos podem fazer a coisa certa, mesmo sem um Big Brother a vigiar por cima dos seus ombros. Uma população motivada e bem informada é geralmente muito mais poderosa e eficaz do que uma população ignorante e policiada.

Considere, por exemplo, lavar as mãos com sabão. Este foi um dos maiores avanços de todos os tempos na higiene humana. Essa ação simples salva milhões de vidas todos os anos. Embora tomemos como certo, foi apenas no século 19 que os cientistas descobriram a importância de lavar as mãos com sabão. Anteriormente, mesmo médicos e enfermeiros passavam de uma operação cirúrgica para outra sem lavar as mãos. Hoje, bilhões de pessoas diariamente lavam as mãos, não porque têm medo da polícia, mas porque entendem os fatos. Lavo minhas mãos com sabão porque ouvi falar de viroses e bactérias, entendo que esses minúsculos organismos causam doenças e sei que o sabão pode removê-las.

Mas, para atingir esse nível de conformidade e cooperação, você precisa de confiança. As pessoas precisam confiar na ciência, nas autoridades públicas e nos mídia. Nos últimos anos, políticos irresponsáveis minaram deliberadamente a confiança na ciência, nas autoridades públicas e nos mídia. Agora, esses mesmos políticos irresponsáveis podem ser tentados a seguir o caminho do autoritarismo, argumentando que você simplesmente não pode confiar no público para fazer a coisa certa.

Normalmente, a confiança que foi corroída por anos não pode ser reconstruída da noite para o dia. Mas estes não são tempos normais. Num momento de crise, as mentes também podem mudar rapidamente. Você pode ter discussões amargas com seus irmãos durante anos, mas quando ocorre alguma emergência, você repentinamente descobre um reservatório oculto de confiança e amizade, e corre para ajudar um ao outro. Em vez de construir um regime de vigilância, não é tarde demais para restabelecer a confiança das pessoas na ciência, nas autoridades públicas e nos mídia.

Definitivamente, também devemos fazer uso de novas tecnologias, mas essas tecnologias devem capacitar os cidadãos. Sou totalmente a favor de monitorizar minha temperatura corporal e pressão arterial, mas esses dados não devem ser usados para criar um governo todo-poderoso. Em vez disso, esses dados devem permitir que eu faça escolhas pessoais mais informadas e também responsabilize o governo por suas decisões.

Se eu pudesse rastrear minha própria condição médica 24 horas por dia, saberia não apenas se me tornei um risco para a saúde de outras pessoas, mas também quais hábitos que contribuem para minha saúde. E se eu pudesse aceder às e analisar as estatísticas confiáveis sobre a disseminação do coronavírus, seria capaz de julgar se o governo me está a dizer a verdade e se está a adotar as políticas correctas para combater a epidemia. Sempre que as pessoas falam sobre vigilância, lembre-se de que a mesma tecnologia de vigilância pode ser usada geralmente não apenas pelos governos para monitorizar indivíduos - mas também por indivíduos para monitorizar governos.

A epidemia de coronavírus é, portanto, um grande teste de cidadania. Nos próximos dias, cada um de nós deve optar por confiar em dados científicos e especialistas em saúde em detrimento de teorias infundadas da conspiração e de políticos que servem a si mesmos. Se não conseguirmos fazer a escolha certa, poderemos pôr em causa as nossas mais preciosas liberdades, pensando que essa é a única maneira de proteger nossa saúde.

Precisamos de um plano global
A segunda escolha importante que enfrentamos é entre isolamento nacionalista e solidariedade global. Tanto a própria epidemia quanto a crise econômica resultante são problemas globais. Eles só podem ser resolvidos efetivamente pela cooperação global.

Em primeiro lugar, para derrotar o vírus, precisamos compartilhar informações globalmente. Essa é a grande vantagem dos seres humanos sobre viroses. Um coronavírus na China e um coronavírus nos EUA não podem trocar dicas sobre como infetar humanos. Mas a China pode ensinar aos EUA muitas lições valiosas sobre o coronavírus e como lidar com isso. O que um médico italiano descobre em Milão no início da gravidez pode muito bem salvar vidas em Teerão à noite. Quando o governo do Reino Unido hesita entre várias políticas, pode obter conselhos dos coreanos que já enfrentaram um dilema semelhante há um mês. Mas, para que isso aconteça, precisamos de um espírito de cooperação e confiança global.

Os países devem estar dispostos a compartilhar informações de maneira aberta e humilde, procurar aconselhamento e devem poder confiar nos dados e nas ideias que recebem. Também precisamos de um esforço global para produzir e distribuir equipamentos médicos, principalmente testes de kits e máquinas respiratórias. Em vez de cada país tentar fazê-lo localmente e acumular qualquer equipamento que possa obter, um esforço global coordenado poderá acelerar bastante a produção e garantir a vida, o equipamento de economia de energia é distribuído de maneira mais justa. Assim como os países nacionalizam as principais indústrias durante uma guerra, a guerra humana contra o coronavírus pode exigir que "humanizemos" as linhas de produção cruciais. Um país rico com poucos casos de coronavírus deve estar disposto a enviar equipamentos preciosos para um país mais pobre com muitos casos, confiando que se e quando precisar de ajuda posteriormente, outros países virão em seu auxílio.

Podemos considerar um esforço global semelhante para reunir pessoal médico.

Os países atualmente menos afetados podem enviar equipes médicas para as regiões mais atingidas do mundo, tanto para ajudá-las em suas horas de necessidade quanto para obter uma experiência valiosa. Se, posteriormente, o foco da epidemia mudar, a ajuda poderá começar a fluir na direção oposta.

Também é de vital importância a cooperação global na frente económica. Dada a natureza global da economia e das cadeias de suprimentos, se cada governo fizer suas próprias coisas com total desconsideração pelos outros, o resultado será um caos e uma crise cada vez mais profunda. Precisamos de um plano de ação global e precisamos dele rapidamente.

Outro requisito é alcançar um acordo global sobre viagens. Suspender todas as viagens internacionais por meses causará enormes dificuldades e dificultará a guerra contra o coronavírus. Os países precisam cooperar para permitir que pelo menos alguns viajantes essenciais continuem atravessando as fronteiras: cientistas, médicos, jornalistas, políticos, empresários. Isso pode ser alcançado através de um acordo global sobre a pré-seleção de viajantes pelo país de origem. Se você souber que apenas viajantes cuidadosamente selecionados foram permitidos num avião, estaria mais disposto a aceitá-los em seu país.

Infelizmente, atualmente os países dificilmente fazem alguma dessas coisas. Uma paralisia coletiva tomou conta da comunidade internacional. Parece não haver adultos na sala. Esperávamos para ver, há algumas semanas, uma reunião de emergência de líderes globais para elaborar um plano de ação comum. Os líderes do G7 conseguiram organizar uma videoconferência apenas nesta semana, e não resultou em nenhum plano desse tipo.

Nas crises globais anteriores - como a crise financeira de 2008 e a epidemia de Ebola de 2014 - os EUA assumiram o papel de líder global. Mas o atual governo dos EUA abdicou do cargo de líder. Deixou bem claro que se preocupa muito mais com a grandeza da América do que com o futuro da humanidade.

Este governo abandonou até seus aliados mais próximos. Quando proibiu todas as viagens da UE, não se deu ao trabalho de avisar a UE com antecedência - e muito menos de consultar a UE sobre essa medida drástica. Escandalizou a Alemanha ao oferecer supostamente US $ 1 bilhão a uma empresa farmacêutica alemã para comprar direitos de monopólio de uma nova vacina Covid-19. Mesmo que a administração atual acabe mudando de rumo e elabore um plano de ação global, poucos seguirão um líder que nunca assume responsabilidade, que nunca admite erros e que rotineiramente assume todo o crédito por si mesmo, deixando toda a culpa para os outros.

Se o vazio deixado pelos EUA não for preenchido por outros países, não só será muito mais difícil interromper a atual epidemia, como seu legado continuará envenenando as relações internacionais nos próximos anos. No entanto, toda crise também é uma oportunidade. Devemos esperar que a atual epidemia ajude a humanidade a perceber o grave perigo que representa a desunião global.
A humanidade precisa fazer uma escolha. Iremos percorrer o caminho da desunião ou adotaremos o caminho da solidariedade global? Se escolhermos a desunião, isso não apenas prolongará a crise, mas provavelmente resultará em catástrofes ainda piores no futuro. Se escolhermos a solidariedade global, será uma vitória não apenas contra o coronavírus, mas contra todas as futuras epidemias e crises que podem afetar a humanidade no século XXI."

Yuval Noah Harari é o autor de 'Sapiens', 'HomoDeus' e '21Lições para o Século 21'

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